União de facto: o que ninguém te explica até ser tarde demais

Rui Cruz
Criado a

A união de facto é uma daquelas coisas que muita gente acha que percebe, até ao dia em que precisa mesmo de perceber. E normalmente esse dia chega tarde demais: quando há uma separação, uma morte, uma casa para dividir, uma conta bancária bloqueada ou familiares a discutir património.

 Eu já vivi em união de facto, e quem me dera ter sabido disto antes. 

Em Portugal, há muita gente a viver junta durante anos convencida de que o tempo resolve tudo. Não resolve. Viver com alguém durante 5, 10 ou 20 anos pode ter peso emocional, familiar e social, mas não transforma automaticamente a relação num casamento. E esse detalhe, que parece técnico, pode custar milhares de euros.

 

União de facto não é casamento sem papel

A primeira ideia errada é simples: a união de facto não é um casamento mais leve. É outra coisa. Tem alguns direitos, sim. Mas não tem todos. E o problema começa precisamente aí, porque muita gente vive como se estivesse protegida por um regime que, na prática, não existe.

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 Não há comunhão de adquiridos automática. Não há partilha automática dos bens comprados durante a relação. Não há herança automática entre os dois. Não há uma varinha mágica jurídica que apareça no momento da morte ou da separação para dizer: “calma, isto agora divide-se tudo com justiça”.

A lei pode proteger algumas situações, mas tu tens de organizar a tua vida antes do problema aparecer.  Depois, normalmente já vais tarde. 

 

O maior risco da união de facto está na morte

Pode parecer duro, mas é aqui que muita gente acorda para a realidade. Se viveres em união de facto e morreres sem testamento, o teu companheiro ou companheira não passa automaticamente a ser teu herdeiro.

A herança segue para os herdeiros legais: filhos, pais e irmãos, por esta ordem. E isto pode criar situações absurdas: uma pessoa vive anos numa casa, ajuda a pagar despesas, constrói uma vida comum e, de repente, vê-se a discutir com herdeiros que nada tiveram a ver com essa vida diária.

Pior: mesmo quando há casa comprada em conjunto, a metade de quem morreu pode não ir para quem sobrevive. Pode ir para os herdeiros dessa pessoa. Resultado: ficas dono de metade de uma casa e a outra metade passa para terceiros. Bonito no papel? Talvez. Na vida real, é uma fonte de guerras.

Por isso, se estás em união de facto, fazer testamento não é falta de romantismo. É responsabilidade.

Em alternativa, um seguro de vida cujo beneficiário seja o companheiro em união de facto quando não existem filhos ou divisões para os dois (ou mais pessoas) em percentagens. A Metlife é  uma das empresas onde se podem fazer este tipo de seguros com estes critérios, e é económica. 

 

A separação também não divide tudo ao meio

Outro mito perigoso: “se um dia acabarmos, dividimos tudo”. Não é bem assim. Na união de facto, em regra, aquilo que está em nome de uma pessoa é dessa pessoa. O que foi comprado por um, pago por um ou registado em nome de um pode não ser tratado como património comum.

Isto é especialmente perigoso quando um dos dois vai viver para a casa do outro e começa a ajudar a pagar prestações, obras, condomínio, móveis ou despesas estruturais.  No fim, se a relação acabar, pode ter de provar em tribunal que aquilo não era apenas uma ajuda para a vida comum. 

E aqui entra o problema que quase ninguém quer ouvir:  não basta ter razão. Tens de conseguir provar em tribunal e gastar dinheiro com isso, para eventualmente receberes algum. 

Há aqui um lado duro, mas também um lado protetor. Se a relação corre mal, se houve mentira, traição, abuso emocional ou simplesmente uma separação feia, a união de facto não entrega automaticamente metade da tua vida à outra pessoa. Mas também não te salva se passaste anos a pagar despesas, obras ou créditos sem deixar prova. A lei não lê intenções. Lê documentos.

 

O contrato de coabitação devia ser normal

Há uma solução que devia ser muito mais falada: contrato de coabitação. Não estou a dizer que todos os casais precisam de transformar a relação numa reunião de advogados. Mas se há casa, filhos, empresas, poupanças, créditos ou grandes diferenças de rendimentos, fingir que está tudo bem é infantil.

Um contrato de coabitação pode definir quem entrou com o quê, como se pagam despesas, o que acontece aos bens em caso de separação e como se compensam contribuições desiguais. Isto não mata uma relação. Pelo contrário, tira veneno ao futuro.

Quem acha que falar de dinheiro estraga uma relação talvez devesse pensar no contrário: se um assunto básico como este é tabu, talvez o problema não seja o contrato. Talvez seja a relação.

 Eu saí de uma relação tóxica com coabitação tarde de mais. Não te desejo o mesmo azar. 

Pode parecer estranho, mas um contrato de coabitação também pode prever o que acontece quando a relação acaba por factos graves: traição assumida, violência, manipulação, abandono da casa, utilização abusiva de contas comuns ou violação de regras essenciais combinadas pelo casal. Não para transformar a vida íntima num tribunal moral, mas para evitar o caos. Se a casa é de um só, pode fazer sentido prever que, terminada a relação, a outra pessoa deve sair num prazo razoável, retirar os seus bens, entregar chaves e deixar de usar contas, cartões ou acessos comuns.

Naturalmente, isto tem de ser bem escrito por advogado, e aqui os meus preferidos e recomendados são o Dr. Jaime Roriz e a Dra. Joana Roriz, pessoas competentes que me acompanham há mais de dez anos (e não me pagaram para dizer isto). Uma coisa é prever regras de saída. Outra, muito diferente, é imaginar que uma cláusula privada apaga direitos legais, sobretudo quando está em causa casa de morada de família, filhos menores ou situações de vulnerabilidade.

 

A checklist mínima para quem vive em união de facto

Se estás em união de facto, há coisas básicas que devias confirmar. Para o bem ou para o mal.

Tens declaração da junta de freguesia ou prova organizada da vida em comum há mais de dois anos? Tens testamento? Os beneficiários dos seguros de vida estão atualizados? Os PPR, fundos ou produtos financeiros indicam quem deve receber em caso de morte? As contas bancárias estão estruturadas para evitar bloqueios imediatos? Se compraste casa, a escritura reflete quem pagou realmente o quê?

Estas perguntas são chatas mas básicas. Mas são melhores do que perguntas feitas num tribunal, num banco ou numa conservatória, quando uma das pessoas já morreu ou quando a relação já acabou mal.

A união de facto não é um problema.  O problema é viver em união de facto como se a lei fosse adivinhar a tua intenção. 

união de facto

 

Conclusão: proteger não é desconfiar

Há pessoas que confundem prevenção com desconfiança. Eu vejo ao contrário. Se duas pessoas partilham vida, casa, despesas e futuro, então também deviam partilhar clareza.

A união de facto pode funcionar muito bem. Mas só funciona com maturidade. E maturidade não é dizer “logo se vê”. É tratar hoje do que pode destruir a tua vida amanhã.

Não precisas de fazer tudo num dia. Mas devias começar por três coisas: provar formalmente a união de facto, fazer testamento e organizar os documentos financeiros. O resto vem depois.